Eco Diagonistica

Internação por causa respiratória em cidade de MG é cinco vezes maior que a média nacional

Uma suspeita paira sobre a cidade de Ipatinga, no Vale do Aço de Minas Gerais: a poluição do ar pode estar adoecendo a população. O número de internações por problemas respiratórios no município é quase cinco vezes a média nacional. A presença de indústrias, o tempo seco e a frota de carros são apontados como os fatores que levam a esse problema. E a atuação de uma das maiores produtoras de aço plano do mundo está no centro desse impasse.

Monitoramento da qualidade do ar é feito pela própria empresa produtora do aço. FOTO: Laura Marques/CBN (Crédito: )

Monitoramento da qualidade do ar é feito pela própria empresa produtora do aço. FOTO: Laura Marques/CBN

POR LAURA MARQUES (laura.marques@cbn.com.br)

O Brasil teve aproximadamente 560 internações a cada 100 mil habitantes no ano passado. Enquanto, na cidade, foram mais de 2 mil e 600 internações. Os dados são do Ministério da Saúde e da prefeitura.

Uma menina de apenas seis meses de idade engrossou essa estatística no início de 2019. O pai contou que a filha precisou ser internada com uma infecção nos pulmões. O homem, que preferiu não se identificar, disse que a criança não era a única nessa situação.

‘Minha filha nem completou um ano e teve bronquiolite. Teve que ser internada. Chegamos no hospital e tinha mais de 40 crianças com o mesmo problema.’

O Ministério Público de Minas Gerais já conduz investigações sobre o caso. A Secretaria Municipal de Saúde aponta que a atuação de indústrias é um fator que pesa no aumento progressivo de internações por doenças respiratórias na cidade. Além do tráfego de veículos e das emissões de outras empresas.

O município abriga uma das principais empresas produtoras de aços planos do mundo, a Usiminas. Uma tese de mestrado do curso de engenharia industrial do Centro Universitário do Leste de Minas identificou os componentes da poluição do ar em Ipatinga, em 2010. O estudo aponta que alguns são provenientes da siderurgia. São substâncias tóxicas que podem provocar danos à saúde, se estiverem em grandes quantidades. Como explica a autora da pesquisa, Viviane Araújo.

‘O estanho, o zinco, o alumínio e o ferro vêm mais da indústria siderúrgica do que de tráfego de veículos. As partículas menores entram no nosso trato respiratório, vão para os nosso alvéolos pulmonares, atrapalham a nossa respiração, causando problemas como aumento da quantidade de mucosa. E faz com que tenhamos as doenças respiratórias que existem’.

Atualmente, os índices de qualidade do ar em Ipatinga são monitorados pela Usiminas e divulgados online pelo governo do Estado. Os medidores mostram os índices de poluentes inaláveis, que são invisíveis a olho nu. Segundo a empresa, todos estão dentro dos limites previstos pela lei estadual.

O biomédico Paulo Naoum, destacou que o poder público precisa analisar o efeito dessas partículas em Ipatinga. No início dos anos 1980, ele foi um dos responsáveis por identificar a relação entre a poluição atmosférica e as mortes de recém-nascidos em Cubatão, cidade de São Paulo que concentra grandes indústrias. O pesquisador explica porque os índices de poluição sozinhos não revelam a realidade da saúde pública.

‘Os burocratas ficam nos enchendo de números e esquecem qual é o problema da população. A sensação dos moradores é que determina porque em algumas regiões que têm alto nível de poluição sob o ponto de vista internacional não acontece nada com a população. Nesses casos o ar acaba dissipando. E em outros, em que o nível está dentro dos padrões, a população está sofrendo porque o ar fica estagnado em cima dela.’

A Usiminas informou que desconhece qualquer estudo que comprove a relação entre suas atividades e o aumento de problemas de saúde da população de Ipatinga. A companhia alega que o monitoramento da qualidade do ar da cidade segue os parâmetros legais, e leva em conta também as emissões de outras empresas e de veículos. A siderúrgica afirma, ainda, que investe em controle ambiental.

Fonte: CBN

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