Eco Diagonistica

Farmacêutico Raiz X Farmacêutico Nutella

A farmácia no Brasil se estabeleceu em meados de 1860 na forma de uma botica que manipulava e comercializava medicamentos. Naquele contexto, o Farmacêutico Raiz exercia plenamente seu conhecimento, realizava consultas, prestava Atenção Farmacêutica e provia à sociedade a mitigação de males e, muitas vezes, a cura por meio do exercício de sua arte. Esse período marcou o nascimento da FARMÁCIA COMO ESTABELECIMENTO DE SAÚDE, onde o tratamento individualizado realizado pelo farmacêutico conferia valor e importância ao profissional.

A evolução do processo industrial e o advento da produção em larga escala trouxe para a população preços mais baixos e mais opções terapêuticas. Porém, durante essa evolução, um estranho processo de NUTELLIZAÇÃO atingiu a classe farmacêutica no Brasil. Foi neste ponto que perdemos a essência, esquecemos que farmácia é uma profissão alicerçada em serviços de saúde e sucumbimos à farmácia com foco em produtos. Neste ponto ocorreu uma inflexão desastrosa para a profissão. Eis o nascimento do Farmacêutico Nutella. Quem é este? Aquele que não atende no balcão, que não gosta do contato direto com o paciente, que não presta um serviço de saúde e, no auge desse período, aquele que ASSINA UMA FARMÁCIA.

Este movimento de precarização da profissão, no qual muitos da minha geração embarcaram, deixou uma ferida profunda na farmácia brasileira. Os Farmacêuticos Nutella macularam de forma muito grave a autoestima da profissão e o respeito que a sociedade tinha por nós. Isso pode ser evidenciado em uma pesquisa realizada pelo ICTQ em 2014, onde o atendimento farmacêutico foi apontado pela população como 7º fator de escolha de uma farmácia (16%), ficando atrás de preço (77%), localização (64%), atendimento dos vendedores (33%), confiança no estabelecimento (25%), variedade de medicamentos (20%) e hábito (18%). Ainda pintando este retrato, recorro a outra pesquisa realizada pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade, que em 2013 revelou que apenas 39% da população aprovavam a prescrição feita por um farmacêutico.

Felizmente o cenário mudou. A pesquisa intitulada “CONSULTÓRIO FARMACÊUTICO E A CONFIANÇA NA PRESCRIÇÃO”, realizada pelo ICTQ em 2017, apresentou o seguinte dado: 61% da população confia em um farmacêutico para “receitar” medicamentos para doenças simples. Isso mesmo, o FARMACÊUTICO RAIZ, que nasceu no período pré-industrial, como profissional de atenção primária à saúde, está de volta. Foi nessa mesma pesquisa de 2017 que assinamos o atestado de óbito dos Nutellas: foi constatado que 73% da população preferem farmácias que possuem consultório para atendimento farmacêutico.

Nossa categoria está evoluindo a passos largos. Os últimos 5 anos representam um importante resgate para a farmácia brasileira e o renascimento do farmacêutico clínico com atuação em varejo e da farmácia como estabelecimento de saúde, através da Lei 13.021/14. Este cenário se coloca como o trampolim que o Farmacêutico Raiz precisava. A vacinação nas farmácias e os consultórios farmacêuticos servirão de impulso para outras importantes conquistas que estão por vir. E as possibilidades são muitas. Uma delas, apontada pelo ICTQ numa pesquisa realizada em 2018 (DEMANDA DE EXAMES LABORATORIAIS EM FARMÁCIAS E DROGARIAS), é a oferta de exames laboratoriais, serviço que 40% da população gostaria que fosse realizado nas farmácias brasileiras.

A população acordou para a farmácia clínica e o prazo de validade do Farmacêutico Nutella já expirou. Que aqueles que macularam nossa linda profissão descansem em paz nas suas zonas de conforto, de onde, munidos de suas redes sociais, só fazem “destilar mimimi” sobre as suas percepções de falta de reconhecimento profissional. Sejam bem-vindos Farmacêuticos Raiz! A população clama por vocês e o mercado de serviços farmacêuticos é um oceano azul a ser desbravado por profissionais de atitude e pró-atividade.  Para os “assinacêuticos” que vivem de ameaçar deixar a profissão: cumpram suas promessas. Caiam fora!

POR LEONARDO DORO PIRES. Professor do ICTQ (Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico), Bacharel em Farmácia, Administração de Empresas e Ciências Contábeis. Atua como consultor em gestão de varejo farmacêutico e é autor dos livros “Gestão Estratégica para Farmacêuticos” e “A Arte da Guerra para Farmacêuticos”.

Fonte: ICTQ

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